Quarta, 30 de Setembro de 2026

IA usada para constranger crianças: 1 em cada 10 brasileiros conhece vítima

Pesquisa Infinis/Quaest mostra que 89% consideram crianças e adolescentes muito vulneráveis a crimes e violências na internet; especialista alerta que proteção digital precisa envolver famílias, escolas, plataformas e poder público

30/09/2026 às 12h50
Por: Redação Fonte: CNN Brasil
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Inteligência artificial • Getty Images
Inteligência artificial • Getty Images

Um em cada dez brasileiros afirma conhecer uma criança ou adolescente que teve uma imagem falsa e constrangedora criada por inteligência artificial, segundo pesquisa inédita realizada pelo Infinis em parceria com a Quaest, divulgada nesta quarta-feira (30).

O dado faz parte de um levantamento sobre a percepção da população em relação às violências contra crianças e adolescentes no ambiente digital. Para 89% dos brasileiros, crianças e adolescentes estão muito vulneráveis a crimes e violências na internet. No Sudeste, o percentual chega a 92%.

Para Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis, o resultado mostra que a preocupação com a segurança digital deixou de ser uma discussão abstrata. A exposição à internet já faz parte da rotina de crianças e adolescentes, enquanto novas tecnologias ampliam as possibilidades de violência.

“A inteligência artificial generativa é uma tecnologia muito nova, que avança rapidamente e que foi introduzida à população sem restrições de uso ou orientações sobre como melhor utilizar essas ferramentas”, afirma.

A pesquisa mostra que o problema vai além das imagens produzidas por IA: 33% dos entrevistados dizem conhecer alguma criança ou adolescente que já foi humilhado, xingado ou sofreu bullying ou constrangimento social na internet.

Outros 25% conhecem menores que receberam mensagens de conteúdo sexual, enquanto 20% relatam conhecer alguém que recebeu convites para encontros presenciais com estranhos.

No levantamento, também aparecem casos de exposição de dados pessoais: 18% afirmam conhecer crianças ou adolescentes que tiveram informações pessoais divulgadas com o objetivo de intimidação ou perseguição.

Violência digital também é questão de saúde pública

Na avaliação da diretora do Infinis, os resultados precisam ser analisados para além da segurança na internet. Segundo ela, os efeitos da violência digital podem atingir o desenvolvimento e a saúde mental de crianças e adolescentes.

“Construir um ambiente digital mais seguro é também uma forma de promover saúde mental e desenvolvimento saudável na infância e adolescência.”

Márcia também chama atenção para a necessidade de uma resposta que não fique restrita às famílias. Para ela, a dimensão dos riscos identificados pela pesquisa exige articulação entre famílias, escolas, plataformas digitais, serviços de saúde e poder público.

A pesquisa mostra que a preocupação com a supervisão existe: 96% dos brasileiros consideram que pais ou responsáveis deveriam acompanhar o conteúdo acessado por crianças e adolescentes na internet.

Na prática, porém, o acompanhamento varia de acordo com a idade. Entre crianças de 0 a 5 anos, 94% têm o uso acompanhado; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o índice cai para 68%.

Entretanto, para Márcia, proteger adolescentes não significa simplesmente impedir o acesso à internet.

“Os jovens de hoje veem sua presença online como forma de construção de suas identidades pessoais e conexões uns com os outros, e é preciso ter isso em mente antes de impor regras e restrições.”

Ela defende que pais, cuidadores e educadores trabalhem com os adolescentes a identificação de riscos e a utilização de ambientes digitais seguros.

“É preciso que haja um movimento coletivo de discussão, que envolva estudantes, famílias, educadores, terceiro setor e poder público, sobre quais são os riscos reais do mundo digital e que medidas de cybersegurança podem ser implementadas.”

ECA Digital e inteligência artificial

A discussão ocorre em um momento de avanço de novas regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O Infinis já havia destacado o ECA Digital como um avanço diante da exposição cada vez mais precoce e intensa às telas e redes sociais.

Agora, nas respostas ao blog, Márcia acrescenta a discussão sobre a inteligência artificial e cita também o Marco da Inteligência Artificial como parte desse processo de proteção.

“Regulamentações como o Marco da Inteligência Artificial e o ECA Digital representam um avanço importante diante dos desafios trazidos pela exposição cada vez mais precoce e intensa às telas e redes sociais.”

Para ela, o desafio agora é fazer com que a proteção prevista nas normas se transforme em mecanismos concretos de prevenção e cuidado.

“Enfrentar esses novos riscos e garantir um ambiente digital mais seguro é também uma questão de saúde pública.”

A pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil” ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, presencialmente, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

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