
Um em cada dez brasileiros afirma conhecer uma criança ou adolescente que teve uma imagem falsa e constrangedora criada por inteligência artificial, segundo pesquisa inédita realizada pelo Infinis em parceria com a Quaest, divulgada nesta quarta-feira (30).
O dado faz parte de um levantamento sobre a percepção da população em relação às violências contra crianças e adolescentes no ambiente digital. Para 89% dos brasileiros, crianças e adolescentes estão muito vulneráveis a crimes e violências na internet. No Sudeste, o percentual chega a 92%.
Para Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis, o resultado mostra que a preocupação com a segurança digital deixou de ser uma discussão abstrata. A exposição à internet já faz parte da rotina de crianças e adolescentes, enquanto novas tecnologias ampliam as possibilidades de violência.
“A inteligência artificial generativa é uma tecnologia muito nova, que avança rapidamente e que foi introduzida à população sem restrições de uso ou orientações sobre como melhor utilizar essas ferramentas”, afirma.
A pesquisa mostra que o problema vai além das imagens produzidas por IA: 33% dos entrevistados dizem conhecer alguma criança ou adolescente que já foi humilhado, xingado ou sofreu bullying ou constrangimento social na internet.
Outros 25% conhecem menores que receberam mensagens de conteúdo sexual, enquanto 20% relatam conhecer alguém que recebeu convites para encontros presenciais com estranhos.
No levantamento, também aparecem casos de exposição de dados pessoais: 18% afirmam conhecer crianças ou adolescentes que tiveram informações pessoais divulgadas com o objetivo de intimidação ou perseguição.
Na avaliação da diretora do Infinis, os resultados precisam ser analisados para além da segurança na internet. Segundo ela, os efeitos da violência digital podem atingir o desenvolvimento e a saúde mental de crianças e adolescentes.
“Construir um ambiente digital mais seguro é também uma forma de promover saúde mental e desenvolvimento saudável na infância e adolescência.”
Márcia também chama atenção para a necessidade de uma resposta que não fique restrita às famílias. Para ela, a dimensão dos riscos identificados pela pesquisa exige articulação entre famílias, escolas, plataformas digitais, serviços de saúde e poder público.
A pesquisa mostra que a preocupação com a supervisão existe: 96% dos brasileiros consideram que pais ou responsáveis deveriam acompanhar o conteúdo acessado por crianças e adolescentes na internet.
Na prática, porém, o acompanhamento varia de acordo com a idade. Entre crianças de 0 a 5 anos, 94% têm o uso acompanhado; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o índice cai para 68%.
Entretanto, para Márcia, proteger adolescentes não significa simplesmente impedir o acesso à internet.
“Os jovens de hoje veem sua presença online como forma de construção de suas identidades pessoais e conexões uns com os outros, e é preciso ter isso em mente antes de impor regras e restrições.”
Ela defende que pais, cuidadores e educadores trabalhem com os adolescentes a identificação de riscos e a utilização de ambientes digitais seguros.
“É preciso que haja um movimento coletivo de discussão, que envolva estudantes, famílias, educadores, terceiro setor e poder público, sobre quais são os riscos reais do mundo digital e que medidas de cybersegurança podem ser implementadas.”
A discussão ocorre em um momento de avanço de novas regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O Infinis já havia destacado o ECA Digital como um avanço diante da exposição cada vez mais precoce e intensa às telas e redes sociais.
Agora, nas respostas ao blog, Márcia acrescenta a discussão sobre a inteligência artificial e cita também o Marco da Inteligência Artificial como parte desse processo de proteção.
“Regulamentações como o Marco da Inteligência Artificial e o ECA Digital representam um avanço importante diante dos desafios trazidos pela exposição cada vez mais precoce e intensa às telas e redes sociais.”
Para ela, o desafio agora é fazer com que a proteção prevista nas normas se transforme em mecanismos concretos de prevenção e cuidado.
“Enfrentar esses novos riscos e garantir um ambiente digital mais seguro é também uma questão de saúde pública.”
A pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil” ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, presencialmente, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.